Quem está num casamento difícil costuma ouvir duas perguntas: por que não sai e por que não resolve. Muitas vezes, nem a própria pessoa sabe responder. Ela tenta se separar, desiste, tenta de novo. Ou se separa e, anos depois, se culpa por não ter feito isso antes. A constelação familiar oferece um olhar diferente sobre essas situações.

Quem se casa se liga a uma história inteira

Na visão sistêmica, ninguém se casa só com uma pessoa. Cada um traz para a relação a própria família: pais, avós, perdas, exclusões, padrões de casamento. Frederico costuma dizer que quem casa se liga à ancestralidade do outro. Isso explica por que certos conflitos do casal parecem maiores do que os dois: às vezes, o que está em jogo é a história de uma das famílias, e não apenas a convivência.

O que cada um traz da própria família

Cada pessoa chega ao casamento com um modelo de casal, aprendido em casa. Quem cresceu vendo os pais brigarem pode estranhar a calma. Quem viu a mãe sustentar a família sozinha pode ter dificuldade de receber. Quem foi o filho preferido de um dos pais pode continuar mais ligado a ele do que ao parceiro. Nada disso é escolha consciente, e por isso aparece nos momentos de tensão.

Uma situação comum nas constelações é a do parceiro que continua no lugar de filho da própria mãe ou do próprio pai: consulta a família de origem antes de qualquer decisão, toma o partido dela nas brigas do casal, sente que se afastar seria uma traição. Na visão sistêmica, o casamento pede que cada um deixe a família de origem no lugar dela, com respeito, para poder ocupar por inteiro o novo lugar.

O equilíbrio entre dar e receber

Entre adultos, o vínculo se fortalece quando há reciprocidade. Se um só dá e o outro só recebe, a relação perde força. Também se desgasta quando um dos dois passa a cuidar do outro como se fosse pai ou mãe dele. No casamento, os dois estão no mesmo nível, e cada um continua filho dos próprios pais.

Outra forma de desequilíbrio é o casal que vira pai e filho. Um dos dois passa a cuidar, corrigir e proteger o outro, e o outro passa a depender, a se rebelar ou a se esconder. No começo pode parecer amor. Com o tempo, quem cuida se cansa e quem é cuidado perde o respeito por si mesmo. A constelação costuma mostrar de onde vem esse arranjo, muitas vezes de alguém que, na infância, cuidou de um dos pais.

Os relacionamentos anteriores fazem parte da história

Ex-maridos, ex-mulheres e grandes amores anteriores continuam fazendo parte da história afetiva de uma pessoa. Quando um relacionamento importante termina mal, ou é simplesmente apagado, ele tende a pesar sobre o seguinte e, às vezes, sobre os filhos. Numa constelação gravada em 2015, uma filha que não conseguia se aproximar do pai estava, sem saber, no lugar da primeira mulher dele, que tinha ficado com raiva do fim da relação. Reconhecer o lugar de quem veio antes ajuda a dar ao relacionamento atual o lugar dele.

Ciúme do passado

Um sentimento comum nos casais é o ciúme do relacionamento anterior do parceiro, mesmo quando ele terminou há muito tempo. Na visão sistêmica, o caminho não é apagar o ex, e sim reconhecer que ele veio antes e teve um lugar. Quem chega depois tem o próprio lugar, que não depende de o anterior ser esquecido. Uma frase usada nas constelações resume a ideia: "você veio antes de mim, e eu respeito o seu lugar".

Famílias recompostas

Quando há filhos de um casamento anterior, a nova família nasce com uma história que veio antes dela. Na visão sistêmica, essa ordem de chegada ajuda a entender muitos conflitos. Os filhos do primeiro casamento chegaram antes do novo parceiro, e o vínculo com eles tem precedência. O novo parceiro não substitui o pai ou a mãe das crianças, e as coisas costumam andar melhor quando ele não tenta.

Para quem chega, isso pode soar como um lugar menor. Não é. É um lugar diferente, que fica mais leve quando o outro pai, ou a outra mãe, é respeitado diante das crianças, mesmo que a separação tenha sido difícil. Quando o ex é tratado como alguém a ser esquecido, os filhos costumam ficar divididos entre as duas casas.

Por que é tão difícil se separar

É muito comum a pessoa se arrepender de não ter se separado antes e se sentir incompetente por isso. Na leitura sistêmica, há casos em que alguém permanece numa relação porque está ligado a algo maior do que a própria vontade: uma lealdade à família de origem, a repetição de um destino, um emaranhamento com alguém excluído da família do parceiro. Entender isso tira um peso enorme de culpa.

Uma cliente de Frederico assinou o divórcio depois de vinte anos de casamento e se sentia incompetente por não ter saído antes, apesar de ter tentado várias vezes. A resposta dele foi que ela não tinha falhado: estava ligada a algo maior do que a própria vontade. Essa mudança de olhar não muda o passado, mas muda a forma de carregá-lo.

Isso não significa que a pessoa deva permanecer. Às vezes o casamento já terminou, e o que trava a saída é outra coisa. A decisão de ficar ou de se separar é sempre de quem vive o casamento, não de uma constelação.

Quando os relacionamentos terminam sempre do mesmo jeito

Muita gente procura a constelação não por um casamento em crise, mas por uma sequência: relações que acabam no mesmo ponto, parceiros que se parecem, a mesma traição, o mesmo abandono. Na visão sistêmica, vale perguntar como foi o casal dos pais e dos avós, se houve um grande amor interrompido, uma separação traumática, alguém que foi deixado. Às vezes a pessoa está repetindo, por lealdade, o desfecho de uma história que nem é a dela.

Quando um dos dois carrega um luto

Às vezes o casal se afasta sem briga nenhuma, e a constelação mostra que um dos dois está olhando para outro lugar: para um filho que o casal perdeu, para um irmão que morreu cedo, para um dos pais de quem nunca conseguiu se despedir. Quem está preso a um luto tem pouca energia para a vida a dois, e o parceiro sente isso como desinteresse. Quando a perda ganha um lugar, o casal pode voltar a se encontrar.

O que uma constelação pode mostrar

  • se um dos dois está ligado a uma história da família de origem que pesa sobre o casal;
  • se um relacionamento anterior ainda ocupa um lugar não reconhecido;
  • se o equilíbrio entre dar e receber se perdeu;
  • o que precisa ser reconhecido para que uma separação aconteça com menos dano, sobretudo quando há filhos.

Na separação com filhos, um ponto se repete: os filhos continuam pertencendo aos dois. Quando um dos pais tenta apagar o outro da vida da criança, ela costuma carregar esse conflito.

Separar sem apagar

Uma separação bem feita, na visão sistêmica, não apaga o que existiu. Ela reconhece o que houve de bom, assume a parte de cada um no fim e devolve ao outro a parte dele. Em constelações sobre separação, aparecem frases como "o que foi bom entre nós eu guardo", "a minha parte no que deu errado eu assumo, a sua eu deixo com você" e "nossos filhos continuam sendo nossos". Ditas com verdade, elas costumam aliviar um peso que o processo de divórcio, sozinho, não alivia.

Quando há filhos, o cuidado é redobrado. Uma criança levada a escolher um dos lados, ou a ouvir que o pai ou a mãe não presta, carrega esse conflito por muito tempo. É o tema da alienação parental, que Frederico trabalhou numa constelação filmada na OAB de São Paulo e que aparece no artigo sobre a constelação familiar no Judiciário.

Precisa ir o casal?

Não. A constelação sobre o casamento pode ser feita por um dos dois, sozinho, e mostra a imagem de quem trouxe a questão. Quando os dois querem participar, também é possível, desde que nenhum vá por pressão do outro. Em qualquer caso, a constelação não substitui a terapia de casal e não decide pelo casal o que fazer. Muitas vezes, quando um dos dois muda de lugar, a relação inteira pode se reorganizar, mesmo que o outro nunca tenha participado.

Um limite que não se negocia

Em situação de violência no relacionamento, a prioridade é a segurança. A constelação não é caminho para manter alguém numa relação violenta nem para aproximar a vítima de quem a agride. Nesses casos, procure ajuda especializada: a Central de Atendimento à Mulher atende pelo 180, e em emergência o número é o 190.

Constelação sobre casamento em São Paulo

Frederico atende em São Paulo pessoas que vivem um casamento difícil, que estão se separando ou que querem entender por que os relacionamentos se repetem, no Espaço Fruto da Vida, na Rua Fradique Coutinho, 212, em Pinheiros (CEP 05416-000), e no Purusha, na Rua São Benedito, 1532, em Santo Amaro (CEP 04735-003). O tema pode ser trabalhado em atendimento individual, para quem prefere mais reserva, ou dentro dos workshops em grupo.