Uma das perguntas mais frequentes de quem acaba de fazer uma constelação é: e agora? A sessão termina com uma imagem nova, às vezes com muita emoção, e a pessoa volta para a vida de sempre. O que acontece nos dias seguintes faz parte do trabalho, e alguns cuidados ajudam.

O que costuma acontecer nos dias seguintes

As reações variam muito. Algumas pessoas saem com uma sensação de alívio ou de clareza. Outras ficam mais sensíveis, cansadas ou introspectivas por alguns dias. Também é comum lembrar de fatos da família que estavam esquecidos, sonhar com o tema ou perceber, no dia a dia, situações que antes passavam despercebidas.

Ainda em 2011, Frederico comparava o período depois de um workshop de constelação a um pós-operatório: algo foi mexido por dentro, e o tempo de assentar faz parte do processo.

Quem participou só como representante também pode sentir algo nos dias seguintes, porque o papel às vezes toca a própria história. Vale o mesmo cuidado: não tomar como seu o que pertencia à constelação de outra pessoa, e observar, com calma, se aquilo lembra algo da sua família.

Por que a mudança acontece no coração, e não na cabeça

Frederico gosta de lembrar uma observação atribuída a Carl Gustav Jung: há pessoas capazes de escrever um tratado sobre os próprios conflitos sem conseguir mudar nada neles. Entender racionalmente uma história de família ajuda pouco se ela não toca a pessoa por dentro. A constelação aposta nesse outro nível: a pessoa vê, sente no corpo e se deixa tocar pela imagem.

Um dos efeitos mais comuns é a passagem do julgamento para a compaixão. Alguém chega com raiva de quem o feriu e, na constelação, vê essa pessoa dentro da história dela, com pais, avós e perdas que a explicam, ainda que não a justifiquem. Num dos casos que Frederico conta, uma mulher chegou decidida a se vingar do marido, que a tinha deixado pouco depois do nascimento do filho. Ao ver a história pesada da família dele, o desejo de vingança se desfez. Ele frisa que ela cultivou isso depois, e que sem esse cuidado o efeito teria se perdido.

Cultivar o que foi visto

A constelação não planta uma semente que resolve tudo sozinha. Ela abre uma porta. O que acontece depois depende de a pessoa cultivar o que viu e sentiu. Alguns cuidados ajudam:

  • evitar contar e analisar a constelação em detalhes logo em seguida, para não transformar em explicação o que precisa ser sentido;
  • guardar a imagem final e as frases que fizeram sentido, e voltar a elas com calma;
  • não tomar decisões grandes no impulso dos primeiros dias;
  • observar, sem pressa, como as relações se mostram nas semanas seguintes.

Frederico oferece, depois do trabalho em grupo, consultas de integração para quem quer entender melhor o que viveu.

Um roteiro simples para as primeiras semanas

  1. Nos primeiros dias: descanse, se puder, e evite reunir a família para contar o que apareceu. Deixe a imagem trabalhar em silêncio.
  2. Na primeira semana: anote a imagem final e as frases que mais tocaram você. Se vierem lembranças, sonhos ou fatos da família que estavam esquecidos, anote também, sem tentar interpretar.
  3. Nas semanas seguintes: observe as relações envolvidas na questão. Muitas vezes a mudança aparece primeiro em você, no tom de uma conversa ou numa reação que não acontece mais.
  4. Depois de um ou dois meses: se quiser, marque uma consulta de integração para conversar sobre o que viveu. Ela não é uma nova constelação, é um espaço para entender melhor a anterior.
  5. Em qualquer momento: se surgir um sofrimento que atrapalha a rotina, não espere o tempo passar e procure ajuda profissional.

Perguntar à família, com delicadeza

Nos dias seguintes, muita gente sente vontade de perguntar aos pais ou aos tios sobre fatos que apareceram na constelação. Essa conversa pode ser valiosa, desde que feita com cuidado. Em vez de anunciar "descobri na constelação que...", costuma funcionar melhor perguntar com curiosidade: "como era a vida do vovô quando ele chegou aqui?", "a mãe teve outro filho antes de mim?". A família nem sempre sabe, nem sempre quer falar, e isso também precisa ser respeitado.

Frederico Ciongoli fala sobre os erros, os excessos e as ilusões mais comuns na prática da constelação (vídeo de 2021, 7 minutos). Assistir no YouTube

O tempo de cada um

Não existe um prazo certo para o trabalho assentar. Há quem perceba uma mudança na mesma semana e há quem só reconheça, meses depois, que passou a reagir de outro jeito a uma situação antiga. Frederico costuma lembrar que cada coisa tem a sua hora. Comparar a própria experiência com a de outras pessoas do grupo, ou com relatos lidos na internet, costuma atrapalhar mais do que ajudar.

Quantas constelações fazem sentido

Em geral, uma constelação é feita para uma questão específica. Não é um tratamento semanal. Um alerta que Frederico faz com frequência é contra o uso excessivo: constelar a mesma questão várias vezes em pouco tempo pode virar uma forma de fugir de si mesmo, buscando de fora uma resposta que precisa ser vivida por dentro. A constelação ilumina o caminho, mas não trilha o caminho pela pessoa.

O mesmo vale para quem emenda cursos e workshops sobre o mesmo tema. Em excesso, diz Frederico, o que deveria ser um caminho para se encontrar vira a melhor forma de se esconder de si mesmo, ocupado em ouvir os outros.

Questões muito pesadas podem pedir duas ou, no máximo, três constelações. Para voltar ao mesmo tema, costuma fazer sentido dar um intervalo maior, de um a dois anos, e observar o que mudou nesse período.

O primeiro obstáculo

Passada a emoção do trabalho, a vida volta com as suas dificuldades, e é comum aparecer a vontade de constelar de novo ao primeiro obstáculo. Frederico vê isso como um momento importante. É ali que a pessoa precisa sustentar sozinha o que viu, com calma, com reflexão e, para quem tem esse hábito, com meditação. Ele usa uma imagem para isso: um dia é preciso descer sozinho ao porão da própria casa interior, sem segurar a mão de ninguém, nem dos pais, nem de quem conduziu a constelação.

Isso não quer dizer que a pessoa deva ficar sem apoio. Quer dizer que o apoio não substitui o passo que só ela pode dar.

Quando faz sentido voltar a constelar

  • quando surge uma questão nova, diferente da que já foi olhada;
  • quando passou um tempo longo, de um a dois anos, e a vida mudou o suficiente para olhar o mesmo tema de outro lugar;
  • quando a questão é muito pesada e o próprio constelador sugere um segundo trabalho;
  • quando você quer participar de um workshop apenas como representante, o que não é constelar a própria questão.

E quando não faz: quando a vontade é de conferir se a primeira constelação deu certo, de buscar uma resposta diferente para a mesma pergunta ou de adiar uma decisão que já está clara.

O que não esperar

A constelação mexe com quem a fez. Não espere que o pai, o irmão ou o ex mudem por causa dela. Às vezes eles mudam, porque a sua forma de se relacionar com eles mudou. Às vezes não, e a mudança fica em você, na forma de carregar a história. As duas coisas fazem parte do trabalho. Também não espere que a constelação tome decisões por você. Ela pode deixar uma decisão mais clara, mas quem decide e quem sustenta a decisão é você.

Quando a constelação não é suficiente

A constelação é uma abordagem complementar. Se depois dela surgirem sofrimento intenso, angústia persistente ou sintomas que atrapalham a rotina, procure um psicólogo ou um médico. Quem já está em acompanhamento deve mantê-lo. E se em qualquer momento aparecerem pensamentos de desistir da vida, peça ajuda imediatamente: o CVV atende pelo telefone 188, todos os dias, 24 horas.

Como apoiar alguém que acabou de fazer uma constelação

Se quem fez a constelação foi alguém próximo, o melhor apoio costuma ser discreto. Não peça que a pessoa conte tudo, não interprete o que ela viveu e não cobre mudanças. Ofereça companhia, um tempo tranquilo e escuta, se ela quiser falar. Se a pessoa parecer muito abalada por mais de alguns dias, incentive que procure ajuda profissional. E se em algum momento ela mencionar pensamentos de desistir da vida, não espere: o CVV atende pelo 188, todos os dias, 24 horas.

Sinais de que o trabalho está assentando

  • a mesma situação começa a ser vista de outro ângulo;
  • o julgamento sobre alguém da família dá lugar a mais compreensão;
  • a culpa por algo que não era seu diminui;
  • fica mais fácil se posicionar diante de um conflito antigo.
  • as conversas com a família ficam menos carregadas, mesmo quando o assunto não muda;
  • você consegue falar da questão sem a mesma carga de antes.

Integração depois da constelação em São Paulo

Para quem participa dos workshops de Frederico em São Paulo, a consulta de integração pode ser marcada à parte, no Espaço Fruto da Vida, na Rua Fradique Coutinho, 212, em Pinheiros (CEP 05416-000), a cerca de 200 metros da estação Fradique Coutinho do metrô, ou no Purusha, na Rua São Benedito, 1532, em Santo Amaro (CEP 04735-003). É uma conversa sobre o que foi visto, para quem sentiu que a experiência foi intensa ou que ficou alguma dúvida sobre a imagem final. Não é obrigatória: muita gente prefere deixar o trabalho assentar sozinho.