Quem nunca participou de uma constelação costuma imaginar algo misterioso ou constrangedor. Na prática, o trabalho segue uma sequência simples, e saber como ela funciona ajuda a chegar mais tranquilo. A constelação pode ser feita em grupo ou individualmente, e a lógica é a mesma nos dois formatos.
Antes de começar: a questão
Tudo parte de uma questão concreta. Não precisa ser um relato longo nem uma interpretação do problema. Frederico costuma pedir que a pessoa diga o que quer olhar de forma curta e essencial: "não consigo me aproximar do meu pai", "a briga com meu irmão pela herança não termina", "meus relacionamentos acabam sempre do mesmo jeito".
Em seguida vêm algumas perguntas sobre fatos importantes da família: quem morreu cedo, quem se separou, quem foi excluído ou esquecido, se houve adoção, um primeiro casamento, uma perda grande. Não é preciso revelar segredos nem detalhes íntimos. Interessam os acontecimentos, não as opiniões sobre eles.
O que o constelador observa antes de começar
Depois de ouvir a questão e os fatos, o constelador decide por onde começar. Às vezes começa pela própria pessoa e por um dos pais. Às vezes por alguém que nem tinha sido apontado como importante, como um primeiro casamento do pai ou um irmão que morreu cedo. No caso do vídeo mais abaixo, Frederico começou por um relacionamento anterior do pai, e foi ali que a questão se revelou.
Antes de escolher os representantes, ele costuma fazer um minuto de silêncio. É um momento de concentração, para olhar a questão sem pressa e sem uma explicação pronta.
Como é a constelação em grupo
No workshop em grupo, há duas formas de participar: como quem traz a própria questão ou como representante na constelação de outra pessoa. Muita gente começa só representando, o que já é uma forma de conhecer o trabalho.
- Escolha dos representantes. Quem traz a questão escolhe, entre os participantes, pessoas para representar a si mesmo e alguns membros da família. Os representantes não precisam saber quem estão representando nem qual é o problema.
- A imagem inicial. A pessoa posiciona os representantes no espaço conforme a sua imagem interna: quem fica perto, quem fica longe, quem olha para onde.
- A observação. O constelador observa posições, distâncias e a linguagem corporal, e pergunta aos representantes o que sentem. É comum aparecerem sensações claras, como vontade de se afastar, peso, alívio ou falta de ar.
- Os movimentos e as frases. O constelador propõe mudanças de lugar, inclui alguém que estava faltando e sugere frases simples de reconhecimento, como "eu vejo você" ou "você também pertence".
- A imagem final. Em muitos casos, quem trouxe a questão ocupa o próprio lugar na imagem nova, para sentir no corpo, e não só entender, a mudança de posição.
O que acontece numa constelação de grupo fica no grupo. O sigilo é parte do trabalho, e ninguém precisa contar a própria história para os outros participantes.
Como é ser representante
Quem é escolhido para representar alguém não recebe um papel para interpretar. Na maioria das vezes, os representantes não sabem quem estão representando nem qual é a questão. Numa aula para advogados na AASP, em 2017, a advogada que trouxe o caso escolheu os representantes nomeando as pessoas apenas internamente, e ninguém no grupo soube de quem se tratava.
Ao ocupar o lugar, o representante só precisa prestar atenção ao que sente e dizer isso quando o constelador perguntar: vontade de se aproximar ou de se afastar, peso, calor, frio, vontade de olhar para o chão. Não é preciso atuar, adivinhar nem ajudar. Também é comum que o representante reconheça, no papel, algo parecido com a própria história, e por isso muitas pessoas dizem que representar já foi um trabalho para elas.
No fim, o constelador libera os representantes dos papéis. Cada um volta a ser quem é, e o que sentiu pertence à constelação de outra pessoa, não à própria vida.
Um exemplo real
No vídeo acima, gravado em 2015, uma mulher de cerca de 35 anos contou que vivia na casa do pai e que os dois não trocavam nem bom-dia. Frederico perguntou se o pai tivera um relacionamento importante antes da mãe. Tivera. Na constelação, a representante dessa primeira mulher apareceu tomada de raiva, e ficou visível que a filha estava, sem saber, no lugar dela diante do pai. Quando a filha disse ao representante do pai "eu não tenho nada a ver com a sua primeira mulher, eu sou só a sua filha", o clima mudou na hora. Foi o começo de uma aproximação adiada por 35 anos.
O papel do constelador
O constelador não interpreta a vida de ninguém nem diz o que a pessoa deve fazer. Ele observa e propõe. Presta muita atenção na linguagem corporal: para onde cada representante olha, quem cruza os braços, quem fecha os punhos, quem não consegue ficar parado. A partir disso, sugere um movimento, inclui alguém que faltava ou oferece uma frase, e observa o que muda.
Ele também decide quando parar. Uma constelação não precisa chegar a um final completo para ter cumprido o seu papel. Às vezes basta que um fato seja visto pela primeira vez. Como Frederico lembrou na constelação de Uberlândia, cada coisa tem a sua hora, e aquela reaproximação tinha levado 35 anos para acontecer.
Como é a constelação individual
No atendimento individual, não há grupo. Os membros da família são representados por bonecos, por marcadores colocados no chão ou pela imaginação guiada. A pessoa posiciona esses elementos, e o constelador conduz a mesma observação: onde cada um está, o que falta, o que muda quando alguém é incluído ou reposicionado.
A sessão individual costuma ser indicada para quem prefere mais reserva, para temas muito íntimos ou para quem não pode participar de um grupo. A constelação em grupo, por outro lado, costuma ser mais intensa, justamente pela presença dos representantes.
Constelação com bonecos e com marcadores
Na constelação individual com bonecos, a pessoa escolhe figuras para si mesma e para os membros da família e as coloca sobre uma mesa, do jeito que sente a relação entre eles. O constelador pede que ela observe cada figura e perceba o que sente diante de cada uma e, aos poucos, propõe mudanças: aproximar, afastar, virar uma figura para outra, incluir alguém que estava de fora.
Com marcadores no chão, a lógica é a mesma, só que em tamanho real. Cada folha ou almofada representa uma pessoa, e quem traz a questão pisa em cada lugar para perceber como é estar ali. Esse formato tem a vantagem da reserva e permite trabalhar temas que a pessoa não gostaria de levar a um grupo.
Como é um workshop em grupo em São Paulo
Em São Paulo, os workshops de Frederico costumam acontecer às quintas-feiras, das 19h às 23h, com grupos de 20 a 30 pessoas. Numa mesma noite são feitas várias constelações, e cada participante decide se vai trazer uma questão ou só representar. O sigilo vale para todos: o que se vê ali não sai dali. Depois do grupo, quem quiser pode marcar uma consulta de integração, para entender melhor o que viveu.
Os encontros acontecem no Espaço Fruto da Vida, na Rua Fradique Coutinho, 212, conjunto 25, em Pinheiros (CEP 05416-000), a cerca de 200 metros da estação Fradique Coutinho do metrô, e no Purusha, na Rua São Benedito, 1532, em Santo Amaro (CEP 04735-003), na Zona Sul. Vale chegar alguns minutos antes e com roupa confortável, porque os representantes ficam de pé durante as constelações.
O que não acontece numa constelação
Algumas dúvidas aparecem sempre antes da primeira vez, e vale responder logo. Ninguém é hipnotizado, ninguém perde o controle e ninguém é obrigado a dizer ou fazer algo com que não concorde: o representante pode sair do papel a qualquer momento, e quem trouxe a questão pode pedir para parar. Também não há contato físico forçado. Quando o constelador propõe um abraço ou uma aproximação entre representantes, é um convite, e ele observa justamente se o movimento acontece ou não. E ninguém precisa chorar para que o trabalho valha: há constelações intensas e outras quase silenciosas. Se em algum momento você se sentir desconfortável, diga. O cuidado com quem está ali vem antes de qualquer imagem.
O que levar
- a questão que você quer olhar, em uma ou duas frases;
- os fatos que conhece da família: mortes precoces, separações, adoções, exclusões, primeiros casamentos;
- disposição para observar sem buscar uma explicação imediata;
- roupa confortável e, se quiser, um caderno para anotar a imagem final depois.
Não é preciso saber nada sobre a teoria de Bert Hellinger, nem levar alguém da família. E vale lembrar: a constelação é uma abordagem complementar e não substitui psicoterapia, acompanhamento médico ou psiquiátrico.
Quando é melhor esperar
A constelação não é indicada como primeiro recurso numa crise aguda. Se você está passando por um momento de sofrimento intenso, procure antes um psicólogo ou um médico, e deixe a constelação para quando houver mais estabilidade. Se você está num processo judicial com a família, numa situação de violência ou diante de uma decisão urgente, conte isso ao constelador antes de marcar, para que ele avalie se o trabalho faz sentido naquele momento e de que forma.