Quem pesquisa sobre constelação familiar chega rápido a um nome: Bert Hellinger. Foi ele quem organizou e difundiu a abordagem e quem descreveu os três princípios que até hoje orientam o trabalho, chamados de ordens do amor. Entender essas ordens ajuda a entender o que acontece numa constelação e por que certas imagens aparecem.
Quem foi Bert Hellinger
Bert Hellinger nasceu na Alemanha em 1925 e morreu em 2019. Foi padre católico e trabalhou por anos como missionário na África do Sul. Antes de chegar ao trabalho com famílias, estudou teologia, pedagogia e psicanálise, e conheceu de perto abordagens como a terapia primal, a análise transacional, a hipnoterapia e a terapia familiar. A partir das décadas de 1980 e 1990, observando grupos e famílias, ele passou a descrever padrões que se repetiam de geração em geração e a trabalhar com representantes no espaço, o que se tornou a constelação familiar.
Nascido Anton Hellinger, ele adotou o nome Suitbert ao entrar para a vida religiosa, e daí veio o Bert pelo qual ficou conhecido. Passou cerca de dezesseis anos na África do Sul, onde dirigiu escolas e conviveu com o povo zulu, experiência que ele mesmo citava como importante para a sua visão sobre a família e o respeito aos antepassados. Deixou o sacerdócio no começo dos anos 1970 e passou a se dedicar à psicoterapia.
O trabalho dele se espalhou pela Europa, pela América Latina e pela Ásia. Frederico Ciongoli recebeu treinamento diretamente de Hellinger, depois de concluir sua formação em Fenomenologia Sistêmica Familiar pela Multiversity de Pune, na Índia, em 2008.
As influências por trás da constelação
Hellinger não criou a constelação do nada. Ele reuniu e transformou ideias de outras abordagens que conheceu ao longo da vida. Da terapia familiar, sobretudo do trabalho da norte-americana Virginia Satir com as esculturas familiares, veio a ideia de representar a família no espaço. Do psicodrama de Jacob Moreno, a força de viver uma cena em vez de só falar sobre ela. Da análise transacional de Eric Berne, a noção de roteiros de vida que passam de uma geração para outra. E do psiquiatra húngaro-americano Ivan Boszormenyi-Nagy, que publicou com Geraldine Spark o livro Invisible Loyalties (Lealdades invisíveis), em 1973, a ideia de que existe uma contabilidade de méritos e dívidas entre as gerações.
O que Hellinger acrescentou foi a forma de trabalhar: poucas palavras, representantes que não conhecem a história, atenção ao que se mostra no momento e frases curtas de reconhecimento. Foi essa combinação que ficou conhecida no mundo todo como constelação familiar.
Como as ideias dele chegaram ao público
O trabalho de Hellinger ganhou projeção na Alemanha no começo dos anos 1990, com a publicação de Zweierlei Glück, livro organizado por Gunthard Weber a partir de seminários conduzidos por ele. Depois vieram outros títulos, traduzidos para muitas línguas. No Brasil, entre os mais conhecidos estão Ordens do amor e Constelações familiares: o reconhecimento das ordens do amor, este escrito em conversa com a jornalista Gabriele ten Hövel.
Hellinger também viajou muito para conduzir seminários, inclusive no Brasil, onde a abordagem se espalhou rapidamente a partir dos anos 2000. Frederico Ciongoli fez formações específicas com ele, na Alemanha e no Brasil.
Por que se fala em fenomenologia
Frederico prefere chamar o trabalho de fenomenologia sistêmica, e o nome ajuda a entender a postura que Hellinger propunha. Na filosofia, fenomenologia é o estudo do que se mostra à experiência, tal como se mostra, antes de qualquer teoria. Aplicada à constelação, a palavra descreve uma atitude: o constelador não chega com um diagnóstico pronto sobre a família, ele observa o que aparece no momento, nas posições, nos gestos e nas reações dos representantes, e só então propõe um passo.
Essa postura tem uma consequência prática. Duas famílias com histórias parecidas podem mostrar imagens muito diferentes, e o trabalho segue o que aparece em cada uma, não uma regra geral. É também por isso que a mesma frase de reconhecimento pode ser certa numa constelação e não fazer sentido em outra.
A consciência do clã
A ideia de fundo é que os sistemas familiares tendem a preservar a própria coesão. Hellinger chamou essa força de consciência sistêmica, também conhecida como consciência do clã. Ela seria, em grande parte, inconsciente e agiria sobre os membros da família independentemente das intenções de cada um. Quando algo rompe o equilíbrio do sistema, outros membros podem, sem perceber, se identificar com aquele conflito ou destino. As ordens do amor descrevem o que mantém esse equilíbrio.
Primeira ordem: pertencimento
Todos que fazem parte de um sistema familiar têm o mesmo direito de pertencer. Isso inclui quem morreu cedo, o filho que não foi reconhecido, o primeiro casamento de um dos pais, o parente que "não se fala sobre", quem foi expulso ou esquecido. Para a abordagem sistêmica, exclusões, rejeições e esquecimentos importantes costumam repercutir nas gerações seguintes. Muitas constelações terminam justamente com alguém excluído recebendo de volta o seu lugar.
Segunda ordem: hierarquia de chegada
Quem chegou antes ocupa um lugar diferente de quem chegou depois. Os pais vêm antes dos filhos, os irmãos mais velhos antes dos mais novos, e os relacionamentos anteriores fazem parte da história afetiva de uma pessoa. Problemas aparecem, por exemplo, quando um filho passa a cuidar dos pais como se fosse o adulto da relação, ou quando o novo parceiro tenta ocupar o lugar que foi de outro.
Ordem, aqui, não é obediência nem autorização para abuso. Reconhecer que os pais vieram antes não significa aceitar violência nem se submeter. Uma leitura rígida desse princípio é uma das críticas que a constelação recebe, e uma prática séria não pede a ninguém que se curve a quem o agrediu.
Terceira ordem: equilíbrio entre dar e receber
Entre adultos, especialmente no casal, os vínculos tendem a se fortalecer quando há reciprocidade entre o que se dá e o que se recebe. Quando um só dá e o outro só recebe, a relação se desequilibra. Entre pais e filhos é diferente: os filhos recebem a vida e o cuidado e, em vez de devolver aos pais na mesma medida, passam adiante, para os próprios filhos ou para o mundo.
As ordens do amor no dia a dia
Os três princípios ficam mais claros em situações concretas, que aparecem com frequência numa constelação.
- Pertencimento: o primeiro filho, que morreu bebê e de quem ninguém fala, deixa um lugar vazio que o irmão seguinte às vezes tenta ocupar. O filho de um relacionamento anterior, que nunca foi apresentado à nova família, costuma reaparecer, de algum jeito, na geração seguinte.
- Hierarquia de chegada: a filha que vira confidente da mãe sobre os problemas do casamento sai do lugar de filha e passa a carregar um peso que não é dela. O segundo casamento que tenta apagar o primeiro encontra resistência dos filhos.
- Equilíbrio entre dar e receber: o casal em que um sustenta tudo e o outro só recebe se desgasta, mesmo com amor. O filho que tenta devolver aos pais tudo o que recebeu fica preso a uma dívida impossível de pagar.
Frederico usa um exemplo sobre pertencimento que costuma surpreender: o pai que não paga pensão deve responder pelo que fez, mas não deve ser excluído do coração da família nem diminuído diante do filho. A exclusão, nesse olhar, não protege a criança. Ela enfraquece a família inteira.
Por que as ordens importam numa constelação
Durante uma constelação, o constelador observa onde essas ordens parecem perturbadas: alguém excluído, alguém fora do lugar, uma conta entre dar e receber que nunca fechou. Os movimentos e as frases usados no trabalho buscam restabelecer simbolicamente esses lugares, para que a pessoa possa se relacionar de maneira mais livre com a própria história.
As ordens do amor não são regras morais nem um manual de como a família deve ser. São uma lente para enxergar o que, até então, estava oculto.
As críticas às ideias de Hellinger
A obra de Hellinger também é muito criticada, inclusive dentro da própria terapia sistêmica. Já no começo dos anos 2000, associações alemãs da área publicaram críticas à forma como ele conduzia o trabalho, com apontamentos sobre o tom diretivo, a exposição de pessoas em grandes grupos e a ideia de uma ordem familiar fixa. No Brasil, a Nota Técnica nº 1/2023 do Conselho Federal de Psicologia retomou parte dessas críticas.
Conhecer essas críticas ajuda a usar as ordens do amor com mais cuidado. Elas descrevem algo que se observa nas famílias, mas não são leis morais, não autorizam ninguém a julgar a família dos outros e não se aplicam a situações de violência, em que a prioridade é sempre a proteção de quem foi ferido.
Vivenciar o trabalho em São Paulo
Frederico costuma dizer que as ordens do amor se entendem mais pela vivência do que pela leitura: é possível ler dezenas de livros de Hellinger e só perceber o essencial ao participar de uma constelação. Em São Paulo, ele conduz workshops em grupo e atendimentos individuais no Espaço Fruto da Vida, na Rua Fradique Coutinho, 212, em Pinheiros (CEP 05416-000), e no Purusha, na Rua São Benedito, 1532, em Santo Amaro (CEP 04735-003). Quem nunca participou pode começar só como representante, observando como os princípios aparecem na constelação de outras pessoas.