Uma empresa também é um sistema. Tem fundadores, sócios que chegaram depois, pessoas que saíram bem e outras que saíram mal, decisões que favoreceram uns e prejudicaram outros. A constelação empresarial aplica o olhar sistêmico a esse conjunto, para mostrar relações e padrões que não aparecem numa análise convencional.

O que é constelação empresarial

É uma abordagem fenomenológica e sistêmica usada para explorar as dinâmicas de empresas e organizações. Numa sessão, podem ser representados a própria empresa, os sócios, uma diretoria, os clientes, um produto, um projeto ou um objetivo. A partir dessa representação, o constelador observa o que está fora do lugar e o que falta ser reconhecido.

Ela não substitui a análise financeira, jurídica ou de gestão. Funciona como um olhar complementar sobre a parte humana das decisões.

Como é uma constelação empresarial na prática

A sessão começa como uma constelação familiar: com uma questão concreta, trazida por quem tem responsabilidade sobre ela, em geral o dono, um sócio ou um gestor. "Os sócios não conseguem decidir nada juntos." "Ninguém para no cargo de diretor comercial." "A sucessão está marcada e o meu filho não assume." Em seguida, o constelador pergunta pelos fatos importantes da história da empresa: como ela foi fundada, quem saiu e de que forma, que crises atravessou, que decisões deixaram alguém de fora.

Depois, quem trouxe a questão escolhe representantes para os elementos que importam: a empresa, o fundador, os sócios, um cargo, os clientes, um produto, uma meta. No grupo, são outros participantes; no atendimento individual, bonecos ou marcadores. A constelação é feita por quem trouxe a questão, e os nomes das pessoas reais não precisam ser ditos ao grupo. O trabalho segue a mesma lógica de observar posições, distâncias e reações e de propor movimentos até que surja uma imagem mais clara.

Para que tipo de questão ela é procurada

  • conflitos entre sócios e impasses que nenhuma reunião resolve;
  • sucessão em empresa familiar e a entrada da próxima geração;
  • liderança que não é reconhecida pela equipe;
  • disputas de poder entre áreas e diretores;
  • resistência a mudanças e projetos que não andam;
  • processos de compra, venda e fusão de empresas, ao lado da análise técnica.

O cargo em que ninguém fica

Um padrão que Frederico descreve com frequência é o que ele chama de cargo envenenado: uma função em que, há anos, ninguém consegue permanecer. O diretor sai ou é demitido, outro entra, e o ciclo se repete. Às vezes, até um profissional excelente, que funcionou em todas as outras empresas, ali não funciona.

Na leitura sistêmica, quando isso acontece, vale perguntar o que se passou com quem ocupou o cargo antes. Alguém foi injustiçado, demitido de forma desonrosa, nunca reconhecido pelo que fez, ou pagou pela culpa de outra pessoa, como um bode expiatório. A exclusão não resolvida tende a pesar sobre quem chega depois.

O caminho, nesse olhar, é reconhecer o que aconteceu, honrar quem não foi valorizado e reparar o que for possível. Só então o lugar fica livre para quem chega.

Na prática, quando uma empresa vive esse padrão, algumas perguntas ajudam antes mesmo de qualquer constelação: o que aconteceu com quem ocupou o cargo há mais tempo? Alguém foi demitido de forma humilhante, acusado sem chance de defesa ou deixou de receber o que tinha sido combinado? Há uma história que ninguém conta para quem chega? A constelação não aponta culpados nem substitui a apuração dos fatos. Ela ajuda a enxergar onde vale olhar, e quem confirma ou descarta qualquer coisa é a própria empresa.

Frederico Ciongoli explica o que ele chama de cargo envenenado na constelação empresarial (vídeo de 2024, 6 minutos). Assistir no YouTube

Liderança que a equipe não reconhece

Outro motivo frequente é a liderança que não pega. Um gestor competente é promovido e a equipe não o segue, ou um filho assume a diretoria e os funcionários antigos continuam se reportando ao pai. Na leitura sistêmica, vale olhar para quem ocupava aquele lugar antes e para a forma como a troca foi feita. Quando o antecessor saiu sem reconhecimento, ou quando a promoção passou por cima de alguém que esperava o cargo havia anos, a equipe tende a ficar leal ao que ficou para trás. Reconhecer o antecessor, inclusive em público, costuma abrir espaço para quem chega.

Os princípios sistêmicos dentro da empresa

  • Pertencimento: fundadores, ex-sócios e pessoas que construíram a empresa continuam fazendo parte da história dela, mesmo depois que saem.
  • Ordem de chegada: quem chegou antes tem um lugar próprio. Um sucessor que não reconhece o fundador costuma encontrar resistência.
  • Equilíbrio entre dar e receber: quando um sócio sente que dá muito mais do que recebe, ou quando uma equipe não vê reconhecimento pelo esforço, a relação se desgasta.
  • Hierarquia clara: quando dois diretores não se entendem e passam a usar um gerente como ponte, em vez de resolver entre si, o sistema inteiro se enfraquece.

Sinais de que vale olhar sistemicamente para a empresa

  • a rotatividade alta se concentra num mesmo cargo ou numa mesma área, sem explicação técnica;
  • dois diretores não se falam e usam um gerente como mensageiro;
  • a equipe não reconhece a autoridade de quem foi promovido;
  • um sócio fundador saiu brigado e o nome dele virou tabu;
  • a empresa cresce, mas os sócios sentem que ninguém está satisfeito com o que recebe;
  • uma decisão importante, como uma venda ou uma fusão, é adiada sem motivo claro.

Reconhecer quem construiu

Em muitas empresas, a história oficial começa no momento em que os atuais donos assumiram, e quem veio antes desaparece: o sócio que saiu no começo, o primeiro funcionário, o fornecedor que acreditou no negócio quando ninguém acreditava. Na leitura sistêmica, quem contribuiu para a empresa continua fazendo parte dela. Uma menção na história contada aos novos funcionários ou uma conversa de reconhecimento com um ex-sócio podem parecer gestos pequenos, mas costumam mudar o clima de uma organização mais do que se espera.

Empresa familiar: dois sistemas ao mesmo tempo

Na empresa familiar, a família e o negócio se sobrepõem. O filho que é também sucessor, o irmão que é também sócio, o genro que entra na diretoria. Conflitos da casa entram na empresa, e decisões da empresa voltam para a casa. Por isso a constelação empresarial costuma andar junto com a constelação familiar e com o trabalho de governança da família.

Sucessão: o fundador e a próxima geração

A sucessão é um dos momentos mais delicados de uma empresa familiar. O fundador que construiu tudo precisa sair de um lugar que ocupou a vida inteira. O sucessor precisa assumir sem apagar quem veio antes. E os irmãos que não vão para a empresa precisam encontrar o próprio lugar na família sem se sentirem preteridos.

Na leitura sistêmica, a sucessão anda melhor quando o fundador é reconhecido pelo que fez e entrega o lugar de forma explícita, e quando o sucessor assume dizendo, de algum modo, "eu continuo o que você começou, do meu jeito". Quando o fundador não sai de verdade, ou quando o sucessor tenta provar que é melhor do que o pai, o conflito costuma se arrastar. Os instrumentos jurídicos, como o acordo de sócios e o protocolo familiar, cuidam das regras. A constelação olha para o que as regras não alcançam.

Compra, venda e fusão

Quando uma empresa vai ser vendida, comprada ou unida a outra, a análise técnica vem primeiro: números, contratos, mercado, riscos. A constelação, quando é usada, entra ao lado dessa análise, nunca no lugar dela. Ela pode ajudar o dono a perceber o que essa decisão significa para ele e para a família, como a venda de algo que o pai fundou, ou o que está em jogo na relação entre as duas culturas que vão se juntar. A decisão continua sendo dos sócios, com base na avaliação dos profissionais de cada área.

Quem precisa participar

Não é preciso reunir os sócios nem a diretoria. Uma constelação empresarial pode ser feita por uma só pessoa, que traz a questão a partir do lugar dela na empresa. Quando dois ou mais sócios querem participar juntos, o trabalho também é possível, desde que todos estejam ali por vontade própria. O que não faz sentido é usar a constelação para decidir sobre a vida profissional de outra pessoa. Também é comum que o gestor faça uma primeira constelação individual e só depois decida se vale levar o tema a um workshop em grupo.

O que ela não faz

A constelação empresarial não é critério para contratar ou demitir ninguém, não acusa pessoas, não prevê mercado e não substitui auditoria, consultoria ou orientação jurídica. Ela oferece aos donos e gestores uma imagem diferente da situação, que eles decidem como usar.

Constelação empresarial em São Paulo

Em São Paulo, Frederico conduz constelações empresariais para empresários, sócios e famílias empresárias, em atendimento individual ou dentro dos workshops em grupo, no Espaço Fruto da Vida, na Rua Fradique Coutinho, 212, em Pinheiros (CEP 05416-000), perto da estação Fradique Coutinho do metrô, e no Purusha, na Rua São Benedito, 1532, em Santo Amaro (CEP 04735-003), na Zona Sul. Para quem nunca viu uma constelação empresarial, ele costuma sugerir participar antes de um workshop como observador ou representante: a explicação racional ajuda pouco, e a vivência mostra mais.