Há pessoas que sentem uma tristeza que não sabem explicar, uma raiva desproporcional de um parente ou uma culpa que não combina com nada do que fizeram. Elas contam a própria vida e não encontram ali a origem daquilo. Na constelação familiar, essa sensação de carregar algo que não é seu tem nome: emaranhamento.

O termo aparece muito em livros e workshops, às vezes usado de forma tão ampla que perde o sentido. Este texto explica o que Frederico Ciongoli entende por emaranhamento, como ele costuma surgir em famílias que chegam com conflitos de herança, guarda ou sucessão, e o que uma constelação pode e não pode fazer diante dele. Frederico constela desde 2008, quando concluiu a formação em Fenomenologia Sistêmica Familiar na Multiversity de Pune, na Índia, e passou pelo treinamento com Bert Hellinger.

O que a constelação chama de emaranhamento

Na linguagem de Bert Hellinger, uma pessoa está emaranhada quando passa a viver, sem perceber, sentimentos, atitudes ou o destino de outro membro do sistema familiar. Em geral, esse outro é alguém que foi excluído, esquecido ou tratado com injustiça: um filho que a família não reconheceu, uma primeira esposa de quem ninguém fala, um tio afastado depois de uma briga por terras.

A ideia por trás é a de que o grupo familiar tende a preservar o pertencimento de todos. Quando alguém é deixado de fora, outro membro, quase sempre de uma geração posterior, acaba representando essa pessoa na própria vida. Não por escolha, e sim por um amor cego que tenta compensar o que ficou desequilibrado. É uma hipótese de trabalho da abordagem, observada na prática das constelações, e não uma lei comprovada.

Emaranhamento e lealdade não são a mesma coisa

Os dois conceitos andam juntos, mas olham para pontos diferentes. A lealdade invisível, tema de outro artigo deste blog, descreve o vínculo que leva alguém a repetir padrões da família para continuar pertencendo a ela. O emaranhamento descreve o resultado mais concreto desse vínculo: a pessoa ocupa um lugar que não é o seu e assume uma carga que pertence a outro.

Um jeito simples de perceber a diferença: na lealdade, eu faço como meu pai fez. No emaranhamento, eu sinto o que meu avô sentiu, ou brigo uma briga que era dele como se fosse minha. Por isso o olhar sistêmico costuma perguntar menos "por que você é assim?" e mais "a quem isso pertence?".

Formas comuns de emaranhamento na família

Algumas configurações aparecem com frequência nas constelações:

  • o filho que assume o lugar de parceiro de um dos pais depois de uma separação e passa a cuidar dele como se fosse o adulto da casa;
  • a filha que carrega a raiva da mãe contra o pai e rompe com ele sem ter vivido os motivos;
  • o neto que repete, sem saber, a trajetória de um avô de quem a família se envergonhava;
  • o irmão que ocupa o lugar de um irmão que morreu cedo ou que não chegou a nascer;
  • o herdeiro que defende na partilha a parte de alguém que foi excluído, mesmo sem conhecer essa pessoa.

Nenhum desses exemplos é diagnóstico. São imagens que podem ou não fazer sentido para uma família específica, e só o trabalho com os fatos daquela história mostra se fazem.

Quando o emaranhamento chega ao processo judicial

Foi no Judiciário que Frederico viu o emaranhamento com mais nitidez. Desde 2012, ele conduziu mais de mil constelações em litígios familiares e sucessórios, e muitas vezes o conflito do processo era maior do que o objeto em disputa. Um inventário travado por anos por causa de um imóvel de pouco valor, uma disputa de guarda em que um dos pais parecia lutar contra a própria infância, irmãos que repetiam no fórum a mesma briga que os pais tinham tido pela herança dos avós.

Nesses casos, a pergunta sobre a quem a carga pertence muda o rumo da conversa. Quando a parte percebe que está defendendo a mágoa de outra geração, às vezes consegue separar o que é seu do que não é. Isso não decide nada no processo: as decisões continuam com os advogados e com o juiz. Mas pode deixar a conversa menos carregada.

Um exemplo público desse tipo de trabalho é a constelação gravada na Câmara Municipal de Uberlândia em 2015, sobre um pai e uma filha que se reencontraram 35 anos depois. Outro é a de 2017, na AASP, a Associação dos Advogados de São Paulo, sobre a estratégia num conflito de herança. As duas estão no canal youtube.com/@salitre1000, filmadas do início ao fim.

Como o emaranhamento aparece numa sessão

Numa constelação em grupo, a pessoa escolhe representantes para os membros da família e os posiciona no espaço. Na sessão individual, usam-se bonecos ou marcadores. Nos dois formatos, o emaranhamento costuma se mostrar pela posição: o representante do filho se coloca ao lado da mãe, no lugar do pai; alguém olha fixamente para um ponto vazio, onde ninguém foi colocado; um representante se sente pesado sem saber por quê.

Antes de montar a imagem, Frederico pergunta pelos fatos: quem morreu cedo, quem foi embora, quem foi deserdado, quem teve outro casamento antes. São esses dados, e não opiniões sobre quem tinha razão, que ajudam a ver a quem a carga pertence. Quando a pessoa excluída ganha um lugar na imagem, o representante emaranhado muitas vezes consegue voltar ao próprio lugar. Frases simples, ditas só se fizerem sentido para quem constela, ajudam a marcar essa devolução, como "isso é seu, eu deixo com você".

Nada disso é imposto. Se a pessoa não reconhece a imagem ou prefere não dizer uma frase, o trabalho respeita a recusa.

Os limites do olhar sistêmico

Falar de emaranhamento pode levar alguém a explicar tudo pela família, e esse é um risco real. Nem todo sentimento difícil vem de outra geração, e nem toda dificuldade pede uma constelação. A abordagem é de autoconhecimento: não é psicoterapia, não substitui psicoterapia nem acompanhamento médico ou psiquiátrico, e o Conselho Federal de Psicologia tratou do tema na Nota Técnica CFP 1/2023. A constelação familiar também não é profissão regulamentada, e o CNJ, que começou a julgar em 17 de outubro de 2023 a regulamentação do seu uso no Judiciário, ainda não concluiu o julgamento, suspenso por pedido de vista.

Há ainda um limite que não se discute. Se o que aparece por trás do emaranhamento é violência doméstica ou contra criança, a proteção vem antes. A constelação nunca serve para aproximar vítima e agressor. A Central de Atendimento à Mulher atende pelo 180 e, em emergência, o número é o 190. Se o peso estiver grande demais ou surgirem pensamentos de desistir da vida, o CVV atende pelo 188, a qualquer hora.

Emaranhamento familiar: onde olhar o tema em São Paulo

Frederico atende presencialmente em dois endereços. Em Pinheiros, no Espaço Fruto da Vida, Rua Fradique Coutinho, 212, conj. 25, a poucos passos da estação Fradique Coutinho do metrô. Em Santo Amaro, no Purusha, Rua São Benedito, 1532. Os workshops em grupo costumam acontecer às quintas-feiras à noite. Para temas de herança ou sucessão que a pessoa prefere tratar com mais reserva, a sessão individual com bonecos tende a ser o formato mais adequado.

O agendamento é feito pelo WhatsApp (11) 97133-5703. Contar em poucas linhas o que tem pesado e quem da família está envolvido ajuda a definir o formato e o endereço.

Perceber um emaranhamento não apaga a história de ninguém. O que muda é a posição: cada um volta a carregar o que é seu, e quem tinha sido esquecido recupera um lugar. Às vezes isso já basta para que a pessoa fique de outro jeito dentro da própria família.